Segunda-feira, cedo, trânsito na expectativa do retorno às aulas.
La vou eu, satisfeita e feliz a caminho do meu escritório. Quando alcancei a Avenida Jornalista Roberto Marinho vejo uma cena inusitada. No meio dos carros, na terceira fila da direita, um catador de papelão puchando seu carrinhoganha-pão tentava acompanhar a fila dos automoveis, correndo e tentando passar para a segunda fila onde eu estava e pegar a da esquerda antes do retorno. Daí começou a confusão. Sem pisca-pisca, obvio, ele foi entrando e bloqueando os poucos motoqueiros que estavam por ali . O carrinho de madeira passou para a segunda e depois para a fila da esquerda, só que teve que correr por conta dos carros, provocando risos.
Eu segui meu caminho mas a imagem do corajoso catarista ( pedestre catador motorista), demorou para sair da minha retina.
Arquivo de julho de 2008
Imagens do cotidiano
segunda-feira, 28 de julho de 2008Escrever uma peça para o teatro
sexta-feira, 11 de julho de 2008Acidentalmente conheci um ator. Conversando descobrimos que somos espíritas. Ele queria montar uma peça sobre ” Aborto” , no sentido do esclarecimento e não da catequisação, tema que conheço bastante pelos estudos da literatura espírita, desde o Evangelho até as obras de Francisco Cândido Xavier.
Estou pensando mas nesse meio tempo, comecei escrever minha nova participação para os Talentos da Maturidade do Banco Real para o ano de 2009. O tema é o mesmo. Espero conseguir levar ao papel meus pensamentos positivos para o vida e para o direito de nascer, respeitando os pensamentos contrários. Cada um tem a liberdade e o livre arbítrio.
Lembranças de uma infância feliz
quinta-feira, 3 de julho de 2008Nunca apagou de minha memória a imagem da menina franzina e seu cavalo alazão. Comum nas cidades do interior, Itapetininga tinha também uma rua principal com lojas, farmácias, uma rádio e um cinema. Uma segunda rua importante , era passagem de peões e boiadeiros, tendo em seu final um bebedouro d´água construido pela prefeitura local.
Eu nasci nessa rua chamada Quintino Bocaiúva na casa de número 654. Era a terceira filha de um negociante judeu vindo da Bessarábia em 1940, proprietário de uma loja de armarinhos, a maior e mais completa da cidade , na época.Os balcões eram dispostos em “U” invertido com duas portas atrás dos mesmos, uma para entrada da moradia e a outra para o imenso quintal composto por tres partes:
A primeira acompanhando a extensão da residência tendo na sua largura de um metro e meio, um muro de separação com o vizinho do lado esquerdo. A segunda que foi comprada após alguns anos, era um terreno de aproximadamente 30 metros de comprimento por 20 de largura, coincidentemente a mesma largura da construção da casa. A terceira aquisição foi uma oportunidade que apareceu anos depois, quando eu já estava mais crescidinha e ai então, era um terreno enorme, com uma entrada opcional pela rua lateral, todo gramado e onde jamais meu pai permitiu que brincássemos, eu e meus dois irmãos. A caçula nasceria 4 anos depois.
Guardo de minha infância recordações alegres, sempre passeando em uma charrete tão comum na cidade até a chácara da familia. Meu irmão era a companhia perfeita para correr pela mata, subir nas árvores dispostas como um corredor e cair na piscina rústica refrescando o exercício da corrida. Trepávamos nas árvores, comíamos coquinhos, descascávamos mixiricas até não aguentar mais, corríamos das vacas , espreitávamos os bichos noturnos pelo vão da janela mal fechada.
Á noite, o quarto de dormir da chácara era iluminado por velas, projetando nas paredes sombras angustiantes para duas crianças. Nossa vantagem era o extremo cansaço pelo dia fartamente aproveitado, dormindo muito rápido apesar de nossa vigilância nas imagens desenhadas pela sombra da luz de vela.
Para a escola pública, usava o uniforme do Instituto de Educação Peixoto Gomide, onde me alfabetizei. Após as aulas, quase sempre eu estava descalça, vestidinho de chita, laçarote nas costas e o cabelo preso em rabo de cavalo. Mas a minha paixão era meu cavalo Alazão.
Alazão foi adquirido inesperadamente, por conta de uma dívida cujo responsável não tinha outra maneira de quitar, 6 anos de idade, lindo e grande, suas cores castanho e castanho avermelhado lhe davam um ar magestoso acrescido de crina e cauda palha dourada. Deixava-se montar sempre sem a sela, parecendo adivinhar que sobre ele estava sua pequena amiga de sempre.
Durante a noite, Alazão ficava nos fundos da casa, no terceiro quintal com grama a vontade e um bebedouro longo, tosco, sob a sombra de árvores não frutíferas. Mal continha a alegria quando eu via o meu cavalo na frente da loja. Eu me agarrava em sua crinas subindo em seu lombo sem sela com a maior facilidade. Ele sabia a sequência de comportamento a partir do instante que sentia meu pequeno peso, virava a cabeça em direção do bebedouro, eu o segurava pelas rédeas de comando mas isso não fazia diferença alguma. O trote era calmo e pequena distância que vencia até o fim da rua. Quando aplacava a sede, lentamente girava sobre as patas e iniciava a volta em rítmo de galope, escorregando por vezes nos paralelepípedos da rua. Eu o conduzia com uma mão nas rédeas, outra nas crinas, minhas pequenas pernas em sua barriga tentando meu equilibrio sobre o animal. Nunca caí.
Galopando chegávamos os dois a salvo na loja. Ouvíamos a reclamação dos vizinhos perguntando a meu pai onde estava a sua autoridade para impedir semelhantae risco. Obvio que eu não obedecia e adorava a sensação do galope e da força que emanava do animal. Não tinha absolutamente nenhum medo da altura.
Tudo isto se acabou em uma manhã de verão.
Como de hábito, meu pai levava o feno para o cavalo e normalmente eu o acompanhava para abraçar meu amigo de quatro patas. Nesse dia ao entrarmos no terceiro quintal nossos olhos não queriam acreditar no que viam: durante a noite meu amigo foi atacado por uma cobra e as marcas estavam visíveis em sua barriga. Lembro-me bem das grossas lágrimas que cairam de meus olhos. A dor era tão grande pela perda que, meu pai rapidamente após constatar que não podia fazer mais nada pelo animal, carregou-me em seus braços falando palavras confortadoras enquanto caminhava para dentro de nossa casa.
Eu nunca esqueci meu primeiro e único cavalo alazão e o dia que marcou o fim de nossa parceria perfeita.