Arquivo de agosto de 2008

O gato, a água e a necessidade

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Um som se fez ouvir na sala onde eu descansava lendo um livro espírita. Caminhei escada acima para o banheiro junto ao meu quarto de dormir. A porta entreaberta deixou-me ver uma cena doce e inusitada.
Sobre a pia de mármore estava meu gatinho preto pintado pela natureza com manchas brancas e que atende pelo nome de Genoveva, olhando pingar da torneira mal fechada, gotas d´água num pim pim pim constante. Após um tempo de encantamento, esticou-se para mais perto do líquido, aproximou a língua avermelhada e sugou a água cristalina interrompendo o pim pim pim.
No chão, ao lado da pia, Churumela, meu gato branco de manchas cinza, observava atentamente a cena, lambendo os beiços de sede. Meus olhos corriam de um para o outro parando no gotejar da torneira. Instintivamente, passei a língua pelos meus lábios pois senti uma sede também irresistível. Aproximei-me, dei um “chega pra lá” nos dois gatos, inclinei a minha cabeça, estiquei a língua invejosa e como eles, bebí o conta-gotas sem pressa.
Aprendi com Genoveva, minha gata corintiana, o prazer de se buscar na fonte, a saciedade de uma de nossas mais básicas necessidades.

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FILOSOFANDO SOBRE A BARATA

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

O inseto mais detestado no mundo segundo minha ótica é a barata, esta representante oficial da familia Blattidae. Penso que as nossas moradoras intrometidas são do tipo Periplaneta americana ou barata americana.
Este animal de duas antenas e três pares de acessórios locomotores, tem aproximadamente 28 a 44 mm de comprimento, praga domiciliar e longevidade de 60 a 250 dias, desde que ninguém pise sobre elas.
Eu estou para entender por que a barata se chama “barata”. Barata, onde? Ora, veja, elas são as popstars do planeta porque, isso sim: sobreviver a uma explosão nuclear! Você consegue? Pois é, eu também não mas elas sim.
E o que dizer do mercado de armadilhas, inseticidas, Baygons, Detefons e outros “fons”? Movimentam uma fortuna. Pode ver que a toda hora aparece um produto novo.
De vez em quando mudam de nome de tantos que são; aí, você vai ao mercado e, além dos “fons”, tem também os “ox”: Matox, Exterminox, Baratox. Mas não se engane: é tudo por causa delas.
As baratas conseguem sobreviver semanas sem partes do corpo e se reconstituem. É verdade que a lagartixa solta o rabo. Ponto para a lagartixa. Mas e de resto? Você não vê lagartixas gerando emprego nas fábricas de inseticidas, nas agências de propaganda. Resumindo, a barata movimenta a economia mundial.
Para mal de nossos pecados, este inseto ainda se dá ao luxo de voar. É assombroso ver este repugnante originário do norte da África, em pleno vôo livre, fantasiada de utilidade na escala ecológica da vida.
Em qualquer casa pode ter vários moradores mas somente um que mata baratas. No meu caso, por exemplo, toda vez que gritos ecoam acentuadamente no verão, corro com o chinelo na mão, pronta para eliminar com gosto esta visita indesejada.
A barata é horrorosa desde o seu nascimento.
Pequenina e rápida, continua igual como adulta, sendo geralmente necessaria três ou quatro chineladas para acertá-la por conta de sua corrida em zigue-zague..
Ela é tão detestável que é usada como comparativo. È comum se ouvir “: – não tenho sangue de barata”.
Lembro-me bem de uma noite quente de verão em que, eu e meu companheiro, líamos na cama, ouvindo o rádio e usufruindo momentos de calma e descontração. Sossego maravilhoso, silèncio na casa e nas mãos um livro interessantíssimo.
Em dado momento, vejo uma coisa passar voando pelo meu nariz e estacionar atrás de mim. De imediato, meu companheiro, armado de seu travesseiro principia o ataque, acertando na minha cabeça por duas vezes e finalmente a barata, que tranquilamente pousou nas minhas costas. Era enorme.
Para evitar estes constrangimentos, optamos por colocar telas em todas as janelas. Instalando-as em seus lugares, eu ria mentalmente da decepção dos insetos quando tentassem voar para dentro dos quartos.
Ao mesmo tempo que estes pensamentos traziam uma satisfação incontida e uma pseudo-tranquilidade, do ralo da casa, saia um exemplar sarado da espécie. Que horror!!
O chinelo voava já que o spray não era utilizado por conta dos dois gatos e uma cachorra, animais de estimação da família. Verdade seja dita, a barata corria para um lado, os animais para outro, as minhas filhas para cima das cadeiras , sobrando apenas eu, má de pontaria, para por fim a essa falta de respeito
Lembro poucas coisas de minha infância, e duas marcaram essa época fortemente, pela aversão a barata que mesmo para morrer nos engana. Ela vira de barriga para cima e quando nos afastamos retorna o seu caminho rindo até não poder mais.
A primeira delas é uma cena em uma cozinha, na antiga casa onde nasci no interior de São Paulo. A lembrança é viva de uma menina, usando camisola e tentando escalar um daqueles antigos armários que se chamavam “ guarda-louças”.
Em dado momento, a menina agarra a borda de uma xícara que repousava sôbre um pires, entorna essa mesma xícara tentando se equilibrar e não conseguindo.
Dentro dela, uma barata dormia placidamente quando, acordada estupidamente, tombou pela cerâmica escorregadía, caindo dentro da camisola da criança.
A lembrança é tão intensa que ainda sinto as pernas do inseto correndo pelo meu corpo e a mesma agonia daquele tempo.
A segunda lembrança é de minha cama na mesma casa do interior. Uma noite, como todas as outras, na hora de dormir, frente ao leito bem arrumado, seguro as pontas da colcha para levanta-la, mostrando o lençol sobre o qual dormiria como um anjinho de criança.
Ora bolas, o que vejo? Uma enorme barata marrom me esperando só mesmo para assustar e fazer do meu sono, pesadelos sem fim.
Minha cachorra mora no quintal, claro. Com seu tamanho grande, a linda pastora belga preta , tem seu prato de água e de comida apoiados em um suporte de ferro. Correto e muito higiênico também.
Diariamente, ao cair da noite, quando a familia se recolhe em seus aposentos particulares, a cumbuca de ração da cadela é retirada do suporte, evitando-se que o cheiro atraia ratos durante a madrugada.
Ora, em uma dessas noites lindas de verão, ao me despedir da cachorra chamada Natascha, como faço desde que ela nasceu, peguei seu comedouro, tirando-o do suporte. Eis que, uma linda barata, grande, bem nutrida, asas bem delineadas, sobe pela minha mão, diz-me boa noite e vôa antes que o meu grito varasse a noite.
Tenho uma grande amiga, psicóloga de profissão, linda, dois olhos enormes e verdes, inteligente e que por profissão ajuda tanta gente a se recuperar de choques, traumas, mêdos, costumes etc.
Acreditem, fui visitá-la há pouco tempo e tive problemas de estacionamento por conta da empresa de águas, trabalhando na rua obviamente abrindo buracos.
Coitadas das baratas, por conta desse trabalho, correram em boa parte para a casa desta minha amiga psicóloga, esperando dela um conselho e uma rota de fuga.
Eu estava sentada na sala de espera, uma delas em frente da minha cadeira, de barriga para cima, outra saindo debaixo da poltrona e a psicóloga chegando para me atender. Hilária situação: no lugar da segura profissional surgiu uma mulher com arregalados olhos verdes, mãos para cima, gritando socorro por conta do inseto por si só assustado com tamanha recepção.
Se eu tivesse dois desejos satisfeitos, certamente um deles seria a extinção das baratas. O resto, vai-se levando sem assistir o filme “A Mumia” e as dezenas de besouros que saem da boca do ator. Também “ Os homens de preto” usam no filme uma quantidade enorme de baratas. Um extremo mal gosto.

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TRANSPARENCIA

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Que coisa triste de ler. Recebi um email de meu amigo que mora em Lima-Peru, em PPS, com um texto sobre uma idosa. Ela dizia estar ouvindo a familia se preparar para uma viagem de férias.
Alegre, esperou que lhe chamassem até o momento que ouviu o carro partir. Deduziu então que era além de idosa, ela era transparente. Ninguem a viu porisso não a chamaram.
Duro, vovó, muito duro será para o idoso o tempo em que se tornará invisível.

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