Arquivo de setembro de 2008

UM JARDIM VISTO DE LONGE

terça-feira, 2 de setembro de 2008

O conjunto de apartamentos da Cohab da Rua Flamengo era grande mas os locais de moradia bastante exíguos mal servindo aos seus moradores com o mínimo de conforto para viver.
Da janela de seu quarto na ala leste, Maria uma senhora aposentada, podia enxergar toda a rua à direita e à esquerda e muito melhor a residência em frente, um amplo espaço extremamente bem cuidado, monitorando a residencia e seus moradores. A casa em questão era térrea, aparentemente cheia de quartos se considerasse o número de janelas visíveis. Uma injustiça perante sua ótica em comparando com o pequeno apartamento que vivia.
Quando os proprietários dessa casa grande trouxeram todos os móveis, disponibilizaram a frente da moradía, um grande espaço, para a criação de um jardim, passando essa responsabilidade à matriarca da familia.
A roseira foi a primeira a ser plantada, desabrochando na primavera seus inigualáveis cachos brancos ( uma espécie onde a flor era substituida por um cacho de pequenas rosinhas lembrando o cacho de uvas).Depois vieram os outros, cravos, copos de leite, violetas, margaridas , crisântemos, azaléas e outros.
Haviam folhagens de todos os tipos que se portavam eretas o tempo necessário para ter sobre si os olhares de admiração dos transeuntes daquele pedaço.
Parecia que todos no jardim combinavam entre si a aparência e o frescor. Disputavam a água jorrada pelo esguicho bebendo até fartar e guardando em seu solo o excesso de umidade para tempos mais difíceis.
No verão, de sua janela onde passava as tardes observando a rua e a casa em frente, Maria podia ver quando a idosa as vezes descansava por um tempo maior , espaçando suas visitas ao jardim. As plantas se preocupavam pois além do afeto recíproco havia a problemática das vitaminas. No inverno não tinham com que se preocupar, era um tempo mais frio sim, mas não sentiam sede, usando as forças estocadas no calor do verão.
Contudo, a vida reservou ao jardim o mesmo problema que são destinados aos seres humanos e animais. O fim. A senhora adoeceu e partiu. Os demais membros da familia se entristeceram quando olharam a beleza do jardim mas não o suficiente para mante-lo úmido e podado.
Pobres flores e folhagens! Foram definhando pouco a pouco, dizendo-se adeus umas às outras até a derradeira e resistente roseira que viu seus cachos desfolhando e forrando o chão com o branco da sua dor.
Quem perdeu? Todos perderam com a ausência da velha dama e a falta de respeito a natureza. Os olhos de todos que continuaram a passar frente a casa térrea nunca mais puderam alí ver a beleza das rosas, a imponência das longas samambaias, as cores dos cravos e a brancura dos copos de leite.

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